As histórias que ainda não foram contadas e as notícias que ainda não foram forjadas.

domingo, 28 de setembro de 2014

Destinos Anêmicos

       Levi foi até a esquina de sua casa para comprar uma caneta e lá comprou uma laranja que veio quebrada. Quando se deu conta de que a laranja não funcionava, pois não tinha vitamina C, o menino voltou à oficina mecânica para devolver a laranja.

       - Não aceitamos devolução. - disse o vendedor magricela que vendera a laranja defeituosa para o menino.
       - Tudo bem, então. Toma de presente para você. - ofereceu o menino.
       - Nesse caso, eu aceito. E lhe agradeço, moleque.
       O vendedor ficou feliz com o presente e decidiu morder um pedaço da laranja ali mesmo. Mastigou bem a fruta e reclamou com o menino:
       - Ei, garoto! Essa laranja está quebrada. Não estou sentindo a presença de vitamina C nela.
       - Sim. Por isso eu queria devolve-la.
       - Você é muito espertinho, hein. - disse o vendedor, lançando a laranja na lixeira ao seu lado.
       - Guardas! Prendam esse pequeno espião! - ordenou o vendedor da oficina mecânica.
       - O que? Por acaso estamos na pré-história? - reclamou o menino, afastando-se do balcão e procurando a saída.
       Antes que o menino pudesse se virar para escapar, dois guardas com roupas de astronauta o seguraram firme.
       - Mesmo em fronte ao perigo, você não consegue parar de enganar. Pensa que me convencerá que existem guardas na pré-história? Só haviam dinossauros e guarda chuvas por lá. Eu não sou idiota, menino.
       O menino fechou a cara para o vendedor, que ordenou aos seus guardas espaciais que levassem o menino para Caxias. Levi implorou para ser levado para qualquer outro lugar, visto que em Caxias fazia muito calor. Mas Luíz, o vendedor do mês da oficina mecânica Charutos e Carvalhos Saltitantes, precisava do suor do menino.
       - Se reclamares mais, mandarei levá-lo para Guapimirim.
       - Não! - informou o menino, desesperadamente.
     Cinco anos depois, o menino abriu uma loja de bicicletas em Caxias e convenceu todos os seus clientes a não usarem mais carros e nem comerem laranjas. Assim, indiretamente, Levi atrapalhou os negócios de Luíz, que declarou falência em público.
       - Eu tenho algo a declarar! - exclamou Luíz, pensando que estava fazendo a coisa certa.
       Como nunca havia declarado falência antes, ele imaginou que poderia invadir uma cerimônia de casamento e fazer sua declaração, pois estaria fazendo a coisa certa. Entretanto, não estava. E por isso o padre que celebrava o casamento entre Marta Supimpa Medeiros e seu marido Helena Castrada de Nascimento, amaldiçoou Luíz.
       - Eu lhe amaldiçoou, em nome de Clarisse, a desconhecida!
       Luíz levou as mãos ao rosto, como se defendesse um ataque direto à sua face e, com os olhos fechados com força perguntou:
       - E qual é a minha maldição, padre?
     - Você… - começou o padre. - Vai… - continuava o padre, indeciso.
     - Vou? - perguntou Luíz, um pouco mais relaxado.
     - Se chamar Carmem! - sentenciou, triunfantemente.
     - Não! - Luíz gritou.
       E todos na casa do Senhor mandaram-no calar a boca.
       Quando foi tirar férias com sua família de esquilos adestrados em sua cidade natal, Levi fez uma visita à oficina mecânica na qual comprara uma laranja quebrada há anos atrás. No entanto, a oficina mecânica estava fechada e suas portas enferrujadas pregadas com grandes vigas de madeira carcomida. Levi ficou triste e se sentiu culpado pela desgraça que causara ao proprietário do empreendimento. Quando o ex-menino se virou para ir embora, fazer qualquer outra coisa da vida para deixar de sentir-se culpado, Luíz despontou da esquina. Levi o reconheceu no mesmo instante.
       - Luíz? - disse Levi, quando ficou frente a frente com o homem maltrapilho.
       - Não. Carmem. Muito prazer, vacilão. - respondeu Carmem, erguendo a mãos suja, magra e trêmula para Levi.
       Levi tentou segurar, mas a gargalhada explodiu de sua garganta e vazou pela sua boca, junto com cuspes, que viajaram pelo ar em câmera lenta e atingiram dramaticamente a face barbada e esquelética de Carmem.
       - Você vai pagar por isso, outrora menino. - resmungou Carmem.
       Levi ficou sério e perguntou qual seria o preço.
       - Dezenove e vinte e três.
       - Aceita cartão? - perguntou Levi.
       - Infelizmente não. Só dinheiro.
       - Que tal uma laranja?
       Levi tirou do bolso uma laranja novinha em folha e sorridente sacudiu-a na frente do velho e zangado Carmem.
       - Isso seria irônico se não fosse extremamente idiota. - disse Carmem, sem o menor senso de humor.
       - Tudo bem. Você tem razão.
       Levi estava um pouco envergonhado, mas feliz por ter tentado. Tirou do bolso a quantia combinada e entregou a Carmem.
       - Muito obrigado, pessoa. - agradeceu Carmem.
       - Guardas! - exclamou Levi. - Prendam este homem! Ele me assaltou!
       Confuso e decepcionado, Carmem tentou fugir, mas um guarda de trânsito lhe jogou spray de marshmallow nos olhos e Carmem parou onde estava, para tentar passar a língua nos olhos. Enquanto isso, Levi gargalhava triunfantemente assistindo os guardas levarem Carmem para a cadeia. Levi deu uma pequena pausa em sua gargalhada e começou a se sentir culpado novamente. E então, para se livrar da culpa, decidiu vendê-la para alguém no ponto de ônibus ao lado.
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