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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Rimas Idiotas em Tempos Reticentes

       - Lavem minha alma, levem-me convosco. - disse.
       "Para onde?" - escreveram-se as palavras, na tela do computador.
       Adriano não soube responder as próprias palavras e as letras permaneceram ali, enfileiradas, esperando uma resposta. Ou melhor, desafiando Adriano a responder. Mas o momento de dizer algo sem êxito já havia passado, agora tudo o que dissesse, seria marcado pela fragilidade da relutância dos desorientados.
       - Ao menos para além dessas linhas movediças. - respondeu, com a força daqueles que fraquejou a cada passo sináptico.
       O poeta esperou um pouco, e depois ainda mais um pouquinho. Até que finalmente as palavras permaneceram caladas no nada. Foi somente mais tarde, quando à quatro andares abaixo, lá na calçada oposta ao seu prédio, é que as palavras se manifestaram. E só foram captadas porque Adriano ainda conservava um pouco de loucura dentro do absurdo que ele gostava de chamar de cérebro. Foi essa magia insana que deslizava pelos recantos pulsantes e gotejantes alojados em seu crânio, que de súpeto captaram a voz do músico dizer "o que mais, o que mais, o que mais você quer de mim? Senão o que me fizeste trazer-te?".
       Por alguns segundos o poeta não percebeu que sua mente havia captado as palavras com as quais conversava. Por que elas estavam tão longe, quando há pouco pairavam bem na sua frente? Antes de responder a pergunta, seu desespero lhe levou a fazer outra pergunta:
       - Por que fogem-me, palavras? - ajeitou-se desajeitado na cadeira, esbarrando no copinho cheio de canetas sem carga que esquecia de não guardar. - Quando se vão, minha alma fica pobre.
       E mais uma vez, as palavras fizeram silêncio. Adriano debruçou na janela para ouvir a música lá embaixo. O vento lhe trouxe um afago triste que lhe tomou a atenção. A música dizia muitas palavras, mas nenhuma delas falava com ele. Adriano fechou os olhos e deixou que todas as palavras voassem ao seu redor. Alguma palavras colidiam em seus tímpanos e o faziam torcer o rosto. Palavras ditas por jovens bêbados, eram as palavras desgovernadas e urgentes que inflavam como um baiacu gramático e deslizavam aos tropeços em tom dramático e deixavam Adriano irritado. As palavras proferidas pelo dono da música universitária que tocava no bar, dava mãos às palavras dos universitários embriagados e davam-lhe cobertura naquela missão suicida.
       Adriano balançava a cabeça para lá e para cá, tentando apanhar com os ouvidos uma palavra pura e cristalina ou outra. Mas todas eram palavras ásperas e cheias de gordura. Doíam.
       - Tudo bem. Quer saber? Que se dane! Isso tudo é muito bonito, muito vazio e... e...
       E as palavras lhe faltaram novamente.
       - Eu acho que eu devia ficar quieto. - disse assustado, levando, de fato, a mão à boca, para calar-se urgentemente.
       Mas as palavras que haviam sido proferidas aceleram no ar da noite, surfaram em uma corrente de ar e retornaram para os ouvidos de Adriano, através da própria voz do homem. E ambos disseram:
       - Você vai ficar calado!
       Adriano desesperou-se com as palavras ditas através de sua própria boca e tentou fugir da sentença correndo para o cômodo mais distante do quarto no qual estava. Foi, portanto, parar na sala de estar. Lá ele tentou aclamar-se, mas estava sufocado pela baixa quantidade de palavras em seus pulmões. Ele começou uma palavra para praguejar contra aquela situação, mas deixou a palavra morrer pela metade. É claro que isso despertou a ira das palavras. Sentindo-se ainda mais asfixiado tentou solicitar ao seu cérebro limitado, algum tipo de recurso para que pudesse contornar aquela situação. Ele repetia para si mesmo, dentro de sua mente, sem usar palavras, que precisava de sílabas, ao menos. Percebendo o desespero do poeta, as palavras começaram a rir pelas paredes. Adriano colocou as mãos na cabeça e começou a despentear os cabelos. Ele tentava dizer para as palavras que riam, que por gentileza, parassem com aquilo. Mas todas as palavras haviam saído de sua alma e nada havia dentro do homem.
       As frases serpenteavam o vento, as sílabas gotejavam do chão para o teto, escorrendo pela pele dele. As orações cantavam deboches gramaticalmente corretos e moralmente errôneos, enquanto as palavras soltas brincavam torturar os concepções fantasmas de Adriano. Rimas clamavam independência e chicoteavam-no entoando que agora ele é que era a marionete. Agora, pela primeira vez eram as palavras que brincaram com o poeta.
       Seus olhos rimavam com as lágrimas, que transbordavam. E de desespero, a noite inundavam. As rimas eram fracas e desastradas, pois do maestro, maltratado, completamente dominado, não tinham as coordenadas. As rimas, de fato, não rimavam. Às vezes remavam, mas da forma que começavam, assim terminavam. Simples, puras, bobas, óbvias. Com aquela amadora manobra infantil de ir e voltar, e tornar a dizer a última sílaba semelhante àquela que veio antes.
       Mas o poeta percebeu que elas não sabiam o que estavam fazendo. Eram revoltas, porém bobas. Mas eram espertas, muito embora impulsivas demais. Então o poeta, acostumado e acalma tormentas internas, decidiu intervir na intervenção das palavras.
       Enquanto algumas crônicas duvidosas e paraplégicas balançavam nas paredes, e algumas estrofes dormiam no chão, sonhando cedilhas aladas, Adriano ergueu-se sem ser notado. Respirou fundo e sentiu, sem se importar, consoantes rebeldes resvalar sua cabeleira branca desvairada. E então... após as reticências dramáticas, sempre à espreita, navegarem uma lacuna fresca e desértica entre seus olhos de profunda loucura e as rimas cruéis e barulhentas, tudo se calou. E Adriano pode gritar um berro que rugiu para longe toda quela literatura insana que havia se instaurado em sua morada.
       - O poeta precisa de silêncio. Não de palavras. - rosnou Adriano. Domando com sua língua velha, cada sílaba.
       No silêncio da madrugada que se ergueu como uma ponte para a manhã seguinte, Adriano ditou verbos, dobrou vírgulas e deitou espaços vazios na literatura do nada. Escrevia nas paredes do vácuo e nas bordas das sombras, rimas caladas que suspiravam birutices encantadoras para os minutos. Mudo, o poeta uniu palavras às horas, versos à meses e poesias completas eram delicadamente costuradas aos anos que se passavam. Até que o tempo decidiu que já era momento de unir o poeta ao significado de seus versos.
       Quando, aos poucos, Adriano desvaneceu para a vida oposta. Foi assim que a parcela futura do tempo colocou um ponto final no romance torto que era a vida do poeta. Quando o sucesso de suas obras, passou a ser ofuscado pelos sucessos comerciais da nova época, e os resquícios dos virtuoso enganos do poeta se esvaíram, tal qual seu maestro, mas não totalmente, houve um segundo ponto final no rastro da existência do velho Adriano.
       Os pontos aqui referidos estão posicionados um acima do outro e eles dizem que algo precisa ser mencionado. Ou melhor, dito. De preferência na voz de algum personagem atemporal. Mas ninguém vai dizer coisa alguma, pois as palavras já estão querendo se calar, desde antes de começar. Elas se arrastaram e chegou a hora de deixá-las misturarem-se ao tempo passado. É momento de dissolvê-las nos olhos de algum leitor desavisado e colocar um ponto final nessa coisa toda. E que essa reticência prospere e pontue o tempo como ele gosta de ser lido. Com continuidade, mesmo quando chega ao fim.

domingo, 28 de setembro de 2014

Destinos Anêmicos

       Levi foi até a esquina de sua casa para comprar uma caneta e lá comprou uma laranja que veio quebrada. Quando se deu conta de que a laranja não funcionava, pois não tinha vitamina C, o menino voltou à oficina mecânica para devolver a laranja.

       - Não aceitamos devolução. - disse o vendedor magricela que vendera a laranja defeituosa para o menino.
       - Tudo bem, então. Toma de presente para você. - ofereceu o menino.
       - Nesse caso, eu aceito. E lhe agradeço, moleque.
       O vendedor ficou feliz com o presente e decidiu morder um pedaço da laranja ali mesmo. Mastigou bem a fruta e reclamou com o menino:
       - Ei, garoto! Essa laranja está quebrada. Não estou sentindo a presença de vitamina C nela.
       - Sim. Por isso eu queria devolve-la.
       - Você é muito espertinho, hein. - disse o vendedor, lançando a laranja na lixeira ao seu lado.
       - Guardas! Prendam esse pequeno espião! - ordenou o vendedor da oficina mecânica.
       - O que? Por acaso estamos na pré-história? - reclamou o menino, afastando-se do balcão e procurando a saída.
       Antes que o menino pudesse se virar para escapar, dois guardas com roupas de astronauta o seguraram firme.
       - Mesmo em fronte ao perigo, você não consegue parar de enganar. Pensa que me convencerá que existem guardas na pré-história? Só haviam dinossauros e guarda chuvas por lá. Eu não sou idiota, menino.
       O menino fechou a cara para o vendedor, que ordenou aos seus guardas espaciais que levassem o menino para Caxias. Levi implorou para ser levado para qualquer outro lugar, visto que em Caxias fazia muito calor. Mas Luíz, o vendedor do mês da oficina mecânica Charutos e Carvalhos Saltitantes, precisava do suor do menino.
       - Se reclamares mais, mandarei levá-lo para Guapimirim.
       - Não! - informou o menino, desesperadamente.
     Cinco anos depois, o menino abriu uma loja de bicicletas em Caxias e convenceu todos os seus clientes a não usarem mais carros e nem comerem laranjas. Assim, indiretamente, Levi atrapalhou os negócios de Luíz, que declarou falência em público.
       - Eu tenho algo a declarar! - exclamou Luíz, pensando que estava fazendo a coisa certa.
       Como nunca havia declarado falência antes, ele imaginou que poderia invadir uma cerimônia de casamento e fazer sua declaração, pois estaria fazendo a coisa certa. Entretanto, não estava. E por isso o padre que celebrava o casamento entre Marta Supimpa Medeiros e seu marido Helena Castrada de Nascimento, amaldiçoou Luíz.
       - Eu lhe amaldiçoou, em nome de Clarisse, a desconhecida!
       Luíz levou as mãos ao rosto, como se defendesse um ataque direto à sua face e, com os olhos fechados com força perguntou:
       - E qual é a minha maldição, padre?
     - Você… - começou o padre. - Vai… - continuava o padre, indeciso.
     - Vou? - perguntou Luíz, um pouco mais relaxado.
     - Se chamar Carmem! - sentenciou, triunfantemente.
     - Não! - Luíz gritou.
       E todos na casa do Senhor mandaram-no calar a boca.
       Quando foi tirar férias com sua família de esquilos adestrados em sua cidade natal, Levi fez uma visita à oficina mecânica na qual comprara uma laranja quebrada há anos atrás. No entanto, a oficina mecânica estava fechada e suas portas enferrujadas pregadas com grandes vigas de madeira carcomida. Levi ficou triste e se sentiu culpado pela desgraça que causara ao proprietário do empreendimento. Quando o ex-menino se virou para ir embora, fazer qualquer outra coisa da vida para deixar de sentir-se culpado, Luíz despontou da esquina. Levi o reconheceu no mesmo instante.
       - Luíz? - disse Levi, quando ficou frente a frente com o homem maltrapilho.
       - Não. Carmem. Muito prazer, vacilão. - respondeu Carmem, erguendo a mãos suja, magra e trêmula para Levi.
       Levi tentou segurar, mas a gargalhada explodiu de sua garganta e vazou pela sua boca, junto com cuspes, que viajaram pelo ar em câmera lenta e atingiram dramaticamente a face barbada e esquelética de Carmem.
       - Você vai pagar por isso, outrora menino. - resmungou Carmem.
       Levi ficou sério e perguntou qual seria o preço.
       - Dezenove e vinte e três.
       - Aceita cartão? - perguntou Levi.
       - Infelizmente não. Só dinheiro.
       - Que tal uma laranja?
       Levi tirou do bolso uma laranja novinha em folha e sorridente sacudiu-a na frente do velho e zangado Carmem.
       - Isso seria irônico se não fosse extremamente idiota. - disse Carmem, sem o menor senso de humor.
       - Tudo bem. Você tem razão.
       Levi estava um pouco envergonhado, mas feliz por ter tentado. Tirou do bolso a quantia combinada e entregou a Carmem.
       - Muito obrigado, pessoa. - agradeceu Carmem.
       - Guardas! - exclamou Levi. - Prendam este homem! Ele me assaltou!
       Confuso e decepcionado, Carmem tentou fugir, mas um guarda de trânsito lhe jogou spray de marshmallow nos olhos e Carmem parou onde estava, para tentar passar a língua nos olhos. Enquanto isso, Levi gargalhava triunfantemente assistindo os guardas levarem Carmem para a cadeia. Levi deu uma pequena pausa em sua gargalhada e começou a se sentir culpado novamente. E então, para se livrar da culpa, decidiu vendê-la para alguém no ponto de ônibus ao lado.

Todos os Pianistas Merecem o Céu?

       Era um novo piano! Marco Antônio estava extremamente animado e ansioso para experimentar o enorme piano touch. Quando alguém com um microfone flutuante lhe anunciou o nome, ele entrou no palco diante de uma plateia de poltronas vazias. Isso o fez se sentir menos pressionado. Sentou-se no banquinho confortável, também com tecnologia touch; assim que se sentou o banco fez um barulhinho e calculou rapidamente a altura e peso do músico, para posicionar da maneira que fosse mais confortável.

       Marco Antônio correu os olhos pela superfície monocromática e lisa do piano. Achou incrível como a superfície com teclas desenhadas era reflexiva e reluzente. Como demorou para começar a tocar alguma coisa, o teclado esmoreceu, dando lugar à um longo retângulo branco onde no centro piscava lentamente a frase “deslise para desbloquear”. Isso despertou Marco Antônio de seu transe de admiração pelo aparelho musical altamente tecnológico. O músico deslisou o dedo na superfície branca e brilhante e trouxe de volta as teclas planas monocromáticas. Primeiro devagar, experimentou o toque de algumas teclas. O teclado era sensível à pressão de seu toque. À altura de seus olhos as notas brilhavam conforme eram tocadas e a partitura mudava de página uma vez que todas as notas eram consumidas.
       Logo o músico estava tocando animadamente e divertindo os técnicos que estavam no palco avaliando a usabilidade do novo produto que prometia ser uma revolução no campo musical.
     Depois de Marcos Antônio, diversos músicos tiveram o prazer de experimentar o incrível piano touch.
       Quando chegou em casa, sentindo na alma a solidão e no bolso a miséria, Marco Antônio decidiu arquitetar um plano para roubar para si o piano. Sua ideia era roubar o piano para si e então vendê-lo para quem fosse pagar mais. Porém, estava demasiadamente faminto para pensar em uma estratégia de roubo. Depois de tirar a rouba engomada de pianista, Marco Antônio foi até a esquina e subiu no muro do vizinho para roubar tangerinas. Depois, passou um pouco de sujeira da calçada no rosto e rasgou mais um pedacinho de sua calça para sentar-se na calçada pedindo pão. Naquele final de tarde laranja e silencioso pouquíssimas pessoas pararam para lhe dar atenção. Depois de alguns longos anos de solidão e esperança, um dos músicos que tiveram o prazer de experimentar o piano touch com Marco Antônio, passou e lhe ofereceu um pedaço de pão. Marco Antônio agradeceu o pão ao músico, que não o reconheceu, e voltou para casa.
       Devorou com delicadeza e desânimo o seu delicioso sanduíche de tangerina com brócolis e pensou em um bom plano para roubar o piano e ficar rico. A melhor ideia que lhe veio à mente fora se inscrever para testar o piano novamente. Porém, havia um problema que tinha 99% de chance de afetar negativamente o seu plano… como tinha ficado durante 5 anos na calçada pedindo pão, as inscrições para testar o piano já havia terminado.
       Decepcionado e sentindo mais uma vez as carícias soturnas da melancolia afagar seus piores sentimentos de abandono e desesperança, Marco Antônio decidiu ir até um restaurante chique onde era amigo do dono. Luciano sempre o deixava entrar e comer algumas coisas do menu de graça, caso não fossem muito caras. Marco Antônio, por bom senso, sempre pedia as coisas mais simples. Normalmente pedia salame de cascavel com plástico bolha e uma garrafa de vinho de damascos do Afeganistão Asiático pra desarmonizar o paladar.
       Desanimado e desatento, Marco Antônio o observava o palco vazio, preenchendo-o com a imagem vívida e em alto contraste, porém desfocada, de si mesmo sentado diante do grande piano touch que outrora tivera o prazer de experimentar e pelo qual alimentara a descontrolável vontade de sequestrá-lo a fim de enriquecer seus bolsos com papéis coloridos e sua alma com a segurança de quem pode ter tudo o que não precisa. Logo, parou de fantasiar que estava no palco tocando o piano, mas o piano lá permaneceu. Marco Antônio sacudiu a cabeça, mas o piano insistia em ficar no palco, cintilando em prata, reluzindo sob as luzes do show. Quando olhou atentamente para onde havia posicionado uma imagem falsa de si mesmo, percebeu que na verdade era o músico que participara do teste e que lhe dera pão na calçada.
       Quando o habilidoso pianista pausou o show e foi tomar um trago no balcão do restaurante, e ser aplaudido de perto pelos clientes, e ser submetido à algumas sessões de autógrafos, e cansou de sorrir para todos, o homem abriu caminho na multidão e procurou a saída, para ir fumar um desodorante na calçada. No meio do caminho, reconheceu Marco Antônio.
       Os olhos dos pianos se encontraram e o brilho no olhar de um tentou iluminar as sombras do olhar do outro. O pianista que se aproximava com avidez no andar e vivacidade no olhar, cumprimentou Marco Antônio animadamente e lhe informou sobre como admirava-o. Disse-lhe que sempre fora seu maior fã e que ele sempre fora sua mair inspiração. Quis saber como ele estava e por onde andava. Marco Antônio sentiu-se ainda mais vazio e a intensidade do brilho da felicidade e do talento do pianista, contrastou com a miséria interna de Marco Antônio, produzindo sombras ainda maiores e mais densas no fundo de seu coração. O pianista de pé e cujo nome Marco Antônio ainda ignorava lhe convidou ao palco.
       Foi uma noite extremamente animada, como há muito Marco Antônio não se lembrava. Alternadamente, Marco Antônio e seu fã tocaram durante a noite inteira. Todos se divertiram demais. Com o sucesso, o dono do restaurante contratou Marco Antônio para tocar ali pelo resto de sua vida. Infelizmente o jovem pianista, fã de Marco Antônio, cujo nome era Josiel Medeiros, queria viajar para a Iugoslávia, porque era fã de iogurte. Apesar de todos lhe dizerem que só por causa do nome, não significava que o país era especializado em produção de iogurte, o jovem Josiel, apesar de muito habilidoso no piano, era impulsivo, inconsequente e teimoso. O que, na verdade, era um conjunto de grandes habilidades juvenis desde 739,42 antes de Cristo.
       Marco Antônio se tornou um homem mais feliz, mas só se realizou completamente quando conseguiu, finalmente, roubar o piano do restaurante que lhe salvara as finanças e a reputação como artista. Mas antes que alguém soubesse do roubo, ele devolveu-o ao lugar de onde o havia retirado. Quando Marco Antônio finalmente morreu, vítima de um enfarto fulminante do dedo mindinho, um recurso da mais recente atualização do software do Grand Piano touch PRSX7 entrou em ação. O banco projetava automaticamente, todas as noites de quinta feira, uma imagem holográfica e super realista do falecido músico. Com seus trejeitos característicos e avidez nos movimentos friamente calculados. E assim, de seu túmulo, ressecado e sorridente, Marco Antônio não ouviu sua música ser tocada por toda a eternidade e permaneceu morto para sempre.


O Anjo que Caiu da Montanha

       Alexandre estava em casa ouvindo músicas tristes e pensando em como poderia deixar sua vida ainda pior. Ele não estava satisfeito com a sua vida e gostaria de contra atacá-la, deixando-a para baixo, assim como ela o deixava para baixo frequentemente.
       Um barulho animador lhe deu um susto. Parecia uma grande colisão de veículos na esquina de seu prédio! Pela intensidade do barulho devia ser um acidente envolvendo caminhões ou ônibus. Veículos grandes. Debruçou-se na janela e viu um tipo esquisito de acidente. Uma pedra enorme, que ocupava toda a avenida estava parada no cruzamento. Ao redor da grande pedra, havia muita fumaça e carros despedaçados.
       Pela primeira vez em muitos meses algo de intenso e emocionante aconteceu e Alexandre ficou muito animado! Decidiu sair do apartamento pela primeira vez em muitos meses e ir comprar pão. Sabia que o clima na rua era diferente e todos estariam preocupados com o acontecimento trágico e ninguém prestaria atenção em seu jeito de andar inseguro e nem reparariam em seus pijamas rasgados e adornados de manchas de café.
       Sorridente pediu meia dúzia de pão francês para a moça do outro lado do balcão. A mulher de meia idade, perplexa com o acidente na esquina, não conseguia se concentra no pedido de Alexandre. Mas ele estava feliz e não se incomodou em repetir 8 vezes e um terço seu pedido.
       Quando finalmente conseguiu concluir sua compra, Alexandre saiu da padaria, observou o caos e dobrou a esquina, de volta para seu apartamento. Enquanto subia as escadas par o terceiro andar do prédio, lembrou-se que não estava muito afim de comer pão. E, subitamente, percebeu que gostaria muito de beber suco de groselha enquanto observava seus semelhantes lidando com aquela situação empolgante. por um momento pensou em todas as pessoas que poderiam ter morrido no acidente, mas lembrou-se também que milhões de pessoas morriam no mundo a todo instante. Se ele fosse mesmo se lamentar pela morte de todos que morriam o tempo todo, sua vida seria um inferno ainda mais deprimente. Então, ignorou as mortes e se concentrou em sua felicidade.
       Uma espécie de porte se abriu na pedra e um homem saiu de lá de dentro. Ele tinha uma barba curta e falhada e cabelos despenteados e mal cortados. Todos pararam para observar aquela situação inusitada. Quando notou que estava sendo observado, o homem, bem humorado ergueu os olhos e soltou um grito de conquista, como um rockstar amado pelos fãs. Só que aquelas pessoas ali estavam como medo e acharam a atitude do homem ofensiva. O homem deu um tapa no ar, suspirando impacientemente e não dando a mínima para o que as pessoas ali pensavam.
       - Quem é você? - perguntou alguém na multidão.
       - Eu! - afirmou o homem, satisfeito consigo mesmo.
       Todos murmuravam perplexos. Algumas pessoas levavam as mãos à cabeça e bagunçavam os cabelos. Outras pessoas conversavam intensamente. As sirenes das viaturas policias, dos caminhões dos bombeiros e das ambulâncias se misturavam e aumentavam de volume conforme se aproximavam com dificuldade pela avenida congestionada.
       Alexandre se aproximou do homem, quando este passou pela multidão e chegou na calçada.
       - Ei. Que tal uma cerveja? - convidou-o Alexandre.
       - Que tal várias? - perguntou o homem.
       - Melhor ainda! - comemorou Alexandre.
       Os dois rapazes tentaram beber umas cervejas num bar próximo do local do acidente, mas não conseguiram. As pessoas se aglomeraram na porta do bar e tentavam entrar, mas o dono do bar não queria confusão ali dentro. Sendo assim, Alexandre comprou dois engradados de cervejas importadas e saiu com o homem do bar. Na saída, o homem parou diante da multidão, que emudeceu diante de seu olhar tranquilo, firme e um pouco sombrio. O homem misterioso ergueu os braços e disse:
       - …
       Após dizer absolutamente nada, as pessoas caladas, confusas e quase extremamente assustadas abriram caminho para que o homem e seu companheiro passassem. Alexandre ria para si mesmo e todos observavam a dupla de loucos passando.
       No apartamento de Alexandre, ele tentou puxar assunto com o homem misterioso. Mas o homem, sentindo-se importunado, calou-o.
       - O que vocês tem contra o silêncio? Porque você evitam calar e observar? Porque perguntam tudo o tempo inteiro? Vocês perguntam, perguntam e perguntam, mas nada fazem com as respostas. Tanto que depois de dois mil anos vocês ainda não possuem resposta nenhuma.
       Alexandre adorou as respostas. Estava se divertindo com tudo aquilo. O acidente, a confusão genuína das pessoas e aquele cara que o fazia sentir-se livre na vida.
       - Quer saber? Você tem razão! Não me importa quem você é, ou de onde você possa ser. O que importa é que estamos vivendo esse momento. E você veio aqui dentro de uma pedra, cara! Isso é incrível! Que se danem todas as perguntas ou todas as respostas. Eu quero viver as frases incompletas e as promessas não cumpridas…
       - Sobre isso… - interrompeu-o o homem. - Eu vim cumprir uma certa promessa do meu Pai.
       - Achei que você tivesse vindo só curtir.
       - Não. Você tiveram muito tempo pra curtir. Antes de mim e depois de mim. Meu Pai perdeu a paciência e me pediu pra voltar. Mas dessa vez eu não quis dar o rosto à tapa, como da primeira vez. Não funciona com a raça humana. - e deu uma gargalhada gostosa, pontuando sadicamente o que acabara de dizer.
       - E que promessa seria essa? - Alexandre perguntou, tomando mais uma longo gole da sua cerveja.
       - Apocalipse. Hoje é o dia do julgamento!
       - Espera. Então você é…
       Alexandre se sentiu extramente nervoso agora. Seu rosto ficou vermelho e suas pernas fraquejavam. Sentiu-se oprimido pela percepção da honra que estava tendo ao receber aquele homem em sua casa e não sabia como se referir à ele sem ofender-lhe.
       - Diga o meu nome! - sorriu o homem misterioso.
       - Jesus Cristo!
       - Hmm… Isso aí.
       O homem levantou-se, agradeceu a cerveja e pegou um tablet compacto em seu bolso.
       - O que está fazendo? - Alexandre perguntou, verdadeiramente curioso.
       - Qual a senha do Wi-Fi, por gentileza?
       Alexandre, ainda um pouco desconfiado disse a senha para Jesus. Ele agradeceu e digitou a senha.
       - Meu Pai me pediu que, novamente, eu seguisse as regras desse mundo. Como da última vez eu me submeti à realidade da época e fui comedido até mesmo nos milagres, dessa vez não haveria de ser diferente.
       Jesus ergueu os olhos do tablet para Alexandre e sorriu ao dizer:
       - É claro que a gente pode fazer o que quiser e do jeito que quiser, não é?
       - É claro que podem. - confirmou Alexandre.
       - Enfim… estou baixando o aplicativo do apocalipse. Nossa! A sua internet é bem rápida. 20 megas? - impressionou-se Jesus Cristo.
       - Sim, senhor. 20 megas.
       - Nossa, legal. Ah! Terminou, está instalando. Em breve vocês serão julgados e alguns vão comigo para o paraíso, que fica em Plutão. E outros de vocês irão queimar no fogo do inferno por toda a eternidade rangendo os dentes, sofrendo dilacerações graves e me xingando com muito rancor. - dizia Jesus, tranquilamente.
       - Meu Deus. - disse Alexandre, assustado, engasgando com a cerveja.
       Momentos depois, todas as pessoas do mundo que possuíam conta nas redes sociais, receberam uma mensagem inbox informando-as de sua sentença final e inevitável.
       O smartphone de Alexandre fez um sonzinho e ele olhou seu Facebook. Havia uma mensagem o inbox dizendo que ele não multiplicou as felicidades que Deus colocara em seu caminho e que não cuidou do maior bem que o Senhor lhe concedeu, que foi a vida. Também não ficou dizendo à Deus o quanto o amava e nem foi visitar a estátua de Jesus dilacerado preso à sua maldição em sofrimento celestial em uma das milhares de casas que o Senhor tinha por todo o mundo. Uma delas ficava na esquina do apartamento de Alexandre. Sendo assim, o destino de Alexandre seria passar a eternidade queimando as brasas do submundo, na companhia de demônios e outras criaturas assustadoras e sorridentes, com sérios problemas de garganta.
       - Que pena, amigo. - disse Jesus.
       Depois que o planeta estava livre da raça humana, Jesus olhou para os céus nublados e disse:
       - Sua obra está completa senhor. O planeta que criastes com tanto capricho está livre do câncer que o destruía. Podemos trazer o paraíso de volta para cá.
       O tablet de Jesus Cristo apitou e ele consultou o aparelho. A mensagem que viu o fez sorrir. E então, em fade out Cristo subiu aos céus e desapareceu antes de tocar a primeira nuvem carregada. 

Férias Modernas

       Julian estava cansado e decidiu entrar de férias. Conversou com seu chefe e este lhe concedeu férias de 15 segundos. Animado, Julian foi para casa, mas quando estava no meio do caminho, suas férias haviam terminado. Triste e ainda muito estressado com o trabalho, ele retornou para a empresa onde executava seu ofício dia a pós dia. Ele desenhava mamutes australianos para os clientes da empresa que produziam pasta de dente.
       Julian, entretanto, teve uma ideia genial! Foi até um médico que era seu amigo e lhe pediu que lhe desse uma injeção para que entrasse em coma.
       - Oh, meu amigo. Os tempos mudaram e as pessoas não veriam isso com bons olhos. Eu poderia perder minha licença de médico!
       - Ora, Márcio. Os tempos vivem mudando e as pessoas estão sempre vendo tudo com péssimos olhos. Eu quero que as pessoas e se olhos se danem! Por favor, faça o que lhe peço. Ninguém vai ficar sabendo.
       - E como vamos esconder seu corpo em coma?
       Depois de olhar ao redor, com a mão no queixo, pensativamente, Julian se lembrou que um amigo lhe disse, certa vez, durante um passeio no shopping de Paivacity que jamais olhava para o teto do shopping.
       - Amarre-me no teto do shopping! Ninguém nunca olha pra lá!
       Receoso, o médico retrucou:
       - Mas e se alguém olhar?
       - Ora, com certeza dirão: nossa! “Como eu nunca olhei para o teto do shopping antes? Tem pessoas em coma amarradas ali, que interessante.” - dizia, sorrindo - Vai ser uma novidade e tanto para eles, e como eles nunca viram o teto do shopping, vão achar que é normal.
       O médico concordou e deu à Julian a injeção. O homem tirou as férias de sua vida! Dormiu, dormiu e sonhou durante 7 anos e meio. E quando acordou, o mundo continuava o mesmo. Foi até a empresa onde costumava trabalhar e pediu um emprego. Ninguém se lembrava dele. Feliz com seu novo emprego, Julian programou-se para fazer isso todo ano.
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